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domingo, janeiro 12, 2003


Sherlock Holmes: uma obra-prima muito além de cachimbos e violinos




Sherlock Holmes — Obra Completa , de sir Arthur Conan Doyle. Ediouro, 1.555 páginas (3 volumes). R$ 145

Bernardo Araujo


Até Xangô já levaram a Baker Street, mas o modesto apartamento de dois quartos de Ms. Hudson, na Londres do século XIX, só tem um orixá: “Mais de 1,80 metro de altura, mas a magreza excessiva fazia com que parecesse ainda mais alto. Seus olhos eram atentos e penetrantes (...); e o nariz delgado, aquilino, dava à fisionomia um ar de vigilância e determinação”, escreveu sir Arthur Conan Doyle em “Um estudo em vermelho”, livro que reuniu pela primeira vez o detetive particular Sherlock Holmes e o médico do exército de Sua Majestade, aposentado após a campanha do Afeganistão, John Watson. A Ediouro está lançando uma edição luxuosa — uma caixa com três livros — com tudo o que o escocês Doyle escreveu sobre seu personagem mais famoso.

Gerações recentes podem conhecer o personagem

Embora ninguém negue a importância de Holmes para a literatura policial, hoje em dia o detetive é mais conhecido por crias bastardas — embora não necessariamente ruins — como o filme “O enigma da pirâmide”, de 1985, e homenagens como a de Jô Soares em seu “Xangô”. O novo pacote de Ediouro dá, finalmente, às novas gerações uma chance de conhecer um personagem ofuscado pela própria lenda, além de um autor brilhante em narrativas e descrições. Pais que ainda têm a esperança de contaminar seus filhos com o vírus da leitura não precisam mais recorrer a livros mofados: tio Doyle está aí mesmo.

A saga de Holmes, originalmente publicada em contos e pequenos livros, está organizada na ordem em que foi escrita: o primeiro volume traz os livros “Um estudo em vermelho” e “O sinal dos quatro” (uma ousadia da tradução, que mudou o nome de um livro consagrado como “O signo dos quatro”) e a coletânea “As aventuras de Sherlock Holmes”. Além das curiosidades, como as primeiras impressões que Watson tem de Holmes e suas esquisitices — mais tarde ele comentaria o consumo de cocaína do parceiro, que usava a droga quando não tinha crimes para resolver e entrava em profunda depressão, e a pouca atração que as mulheres exerciam sobre ele — o livro serve como apresentação do estilo do autor, detalhista ao descrever pessoas e ambientes (expressões como “os modos de um cavalheiro” e “um queixo forte e decidido” são corriqueiras) e um conhecedor profundo de Londres e da Inglaterra. Nas primeiras histórias, é interessante observar a presença de personagens com passagens pela África ou Ásia, sempre com descrições detalhadas de lugares e situações, principalmente as guerras. O próprio Doyle era um viajante quase compulsivo, e, assim como seu personagem e narrador, o dr. Watson, era um médico que havia trabalhado para o Exército.

O segundo volume traz mais duas coletâneas de contos — originalmente publicados na revista inglesa “Strand” —, “Memórias de Sherlock Holmes” e “A volta de Sherlock Holmes”. Entre os dois, houve o célebre episódio da morte do detetive, na Suíça (nas quedas de Reichenbach, que Doyle havia visitado), em confronto com o famigerado professor James Moriarty, o único inimigo que Holmes considerava tão inteligente quanto ele próprio. Cansado da dependência de seu personagem mais famoso, Doyle o matou em “O problema final”. A enxurrada de cartas e reclamações, no entanto, o obrigou a ressuscitar o detetive, em “A volta...”. O volume traz ainda “O cão dos Baskervilles”, possivelmente a história mais famosa de Holmes, que soluciona um crime cometido por um suposto animal diabólico em uma região pantanosa no Devonshire. Aliás, nada melhor do que Doyle para se conhecer a Inglaterra de cabo a rabo.

O último livro mantém o padrão: duas coletâneas, “Os últimos casos de Sherlock Holmes” e “Histórias de Sherlock Holmes” e um pequeno romance, o aterrador “O vale do medo”. Eventualmente, o autor repete situações, mas nada que tire o encanto da leitura, por sua forma e conteúdo.

A despeito de eventuais escorregões na tradução — um pouco mais do que o tolerável —, a publicação de “Sherlock Holmes — Obra Completa” é motivo para muita comemoração. Falta a editora se animar e publicar outros livros de sir Arthur Conan Doyle.



OGlobo - 12/01/2003



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